domingo, 24 de abril de 2011

Energia eólica: lobo travestido de cordeiro?

Energia eólica: lobo travestido de cordeiro?

Marcelo Teles - Doutorando em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal do Ceará
motm93@yahoo.com.br


Após o “descobrimento” do aquecimento global, o meio ambiente têm ocupado crescente espaço em nossas vidas e muitos termos das ciências ambientais passaram a serem utilizados de forma indiscriminada pela mídia, políticos e empresários. Exemplos clássicos são as expressões “energias limpas” e “energias renováveis”. Muitas pessoas as utilizam, mas a maioria confunde os dois conceitos.

O primeiro diz respeito a fontes energéticas que produzem pouco ou nenhum poluente no processo de geração. O segundo só leva em conta a disponibilidade ou taxa de renovação da fonte. Incidentalmente, pessoas acreditam que energias renováveis são limpas e vice-versa. No entanto, podemos pagar um preço alto por essa questão.

Energias renováveis não necessariamente são limpas (apesar de a recíproca geralmente ser verdadeira). Grande exemplo é a energia eólica, vista como uma das salvadoras do planeta, mas que em uma análise detalhada pode se revelar grande vilã do aquecimento.

Essa forma de geração de energia se encontra em franca expansão no mundo. No Ceará até faz parte da política energética do Governo por ser uma fonte “não poluidora”. No entanto, existem dois detalhes desconhecidos ou propositadamente omitidos de sua logística que a tornam uma péssima opção no contexto de mudanças climáticas globais.

Primeiramente, as turbinas que convergem a energia cinética do vento em elétrica precisam de velocidade ideal e constante para funcionar. Na Inglaterra, nas melhores áreas, o vento se mantém em velocidade adequada só em 25% do tempo. Para suprir corrente elétrica contínua nos outros 75%, precisa de fonte suplementar de energia (em regra, combustível fóssil). Assim, a eólica gera cerca de 40% das emissões carbônicas que o carvão geraria para produzir a mesma quantidade de energia.

Outro detalhe diz respeito à eficiência espacial para geração de energia. Para 1 Gigawatt de energia elétrica a partir do gás natural são necessários cerca de cinco hectares; e a partir de energia nuclear, 10 hectares. Para gerar a mesma quantidade de energia, um parque eólico precisa de 250 mil hectares. A não ser que seja instalado em região realmente deserta, provocará o desmatamento de área significativa que potencialmente contribuiria para a captura de carbono atmosférico, comprometendo ainda mais para o aquecimento global.

A energia eólica tem um custo muito elevado – cerca do triplo da nuclear – e gera conflitos territoriais. No Ceará, a instalação de parques eólicos ao longo do litoral tem causado grande insatisfação entre pequenas comunidades de pescadores e marisqueiros, que muitas vezes são impedidos de circular nas redondezas do espaçosos empreendimentos.

A energia eólica não deixa de ter seu valor para uso em pequena escala, quando suplementada pela energia solar, especialmente no contexto urbano, onde não requer qualquer desmatamento. Porém, o custo-benefício dos grandes parques eólicos em regiões rurais ou naturais é realmente questionável. Então, ficam no “ar” duas perguntas: qual o verdadeiro papel da energia eólica frente ao aquecimento global? Quem realmente está se beneficiando com a instalação e comércio de turbinas eólicas?

Um comentário:

Erick Castro disse...

Pelo fato de ter ficado chocado com os absurdos deste artigo, me sinto compelido a tecer alguns comentários no intuito de esclarecer fatos e dados. Há vários conceitos técnicos básicos que parecem escapar do autor do referido artigo. Primeiro, uma turbina eólica não necessita de velocidade constante para operar. Toda a variabilidade do recurso é levada em conta nos seus estudos energéticos. Na europa, incluindo a Inglaterra, o vento não está em velocidade adequada somente 25% do tempo (8760 horas que 1 ano possui por exemplo). Não há sentido algum em se afirmar isso. Talvez o que o autor queresse se referir seja ao Fator de Capacidade médio dos parques europeus. O fator de capacidade é uma grandeza relativa à uma dada potência instalada. Se o FC de um parque eólico é de 25%, isso significa que durante 25% do tempo (25% das 8760 horas que 1 ano possui) o parque estará operando em sua potência nominal. E isso não significa que nos outros 75% do tempo a geração de energia será zero. Dada a variabilidade do recurso, obviamente uma outra fonte de energia firme, e que possa produzir energia elétrica de forma constante, deve ser utilizada. Seja ela proveniente de termo-elétricas (carvão, gás natural etc) ou de hidro-elétricas etc. Tampouco a demanda é por energia elétrica contínua. Como leitores mais esclarecidos sabem, a rede elétrica (grid) de todos os países fornece energia elétrica via corrente alternada. Assim, mais uma vez há um pecado conceitual cometido pelo autor. Outro dado errôneo é o relacionado à densidade energética. Obviamente é sabido por muitos que a energia eólica necessita de mais área do que algumas outras fontes de energia para produzir a mesma quantidade de energia. Porém, o número correto está longe de ser o que o autor informa. Segundo ele são necessários 250.000 hectares para cada 1.000 MW (ou 1 GW). O que equivaleria a um fator de projeto de 250 hectares/MW. Informo que esse número é na verdade 5 vezes menor isso em consideração ao pior caso.
Não obstante, ainda não existe, e provavelmente não existirá, fonte energética com impacto zero. Isso pois sempre haverá impacto seja na área utilizada para a instalação da usina, seja no processo de fabricação dos componentes que comporão a usina. Dentre todas as formas de geração de energia que são viáveis economicamente (nuclear, termo-elétrica, hidro-elétrica, geotérmica etc) a que possui menos impacto ambiental certamente é a energia eólica. Será que o autor do artigo considerou a imensidão da área alagada por uma hidro-elétrica de grande porte? Considerou o deslocamento de toda uma cidade ou da população ribeirinha? Considerou o impacto na reprodução dos peixes rio acima? Considerou o desmate que deverá ser feito sob o risco de emissão de metano da matéria em decomposição? Considerou o impacto na fauna que não mais poderá ali existir? Quem sabe ele preferisse ver funcionando em plena região metropolitana de fortaleza uma usina nuclear. Nesse caso, onde se colocaria os resíduos radioativos? O mundo inteiro está desmobilizando suas usinas. Vejam em sites especializados quantas usina nucleares novas foram instalas no mundo. Ficarão surpresos com o número pequeno e com a localização geográfica. Por fim, o autor afirma que a energia eólica é cara. Convido-o a estudar sobre os leilões de energia promovidos pelo governo. Nele podemos constatar que hoje em dia no Brasil a energia eólica já pode concorrer, e tem sido assim nos últimos leilões, com todas as outras fontes. Tendo inclusive tarifa similar à da energia elétrica proveniente de fonte hidráulica. A grande pergunta que deveria ser respondida é: "Diante da necessidade de energia elétrica, qual a melhor fonte a ser utilizada dado o contexto socio-econômico, tecnológico, e ambiental no nosso país?" Dentre todas as possíveis respostas sóbrias, certamente a energia eólica figurar no meio de outras fontes. Isso pois jamais a resposta será 1 única fonte dada as questões estratégicas envolvidas.